• Joice Viana

UMA CARTA ABERTA PARA OS MEUS EX-EMPREGADORES

Assédio moral é uma das principais causas do surgimento de doenças mentais, você sabia? Cuide melhor dos seus funcionários.

Nessa carta vou contar algumas situações que eu vivi como funcionária em algumas empresas, principalmente aquelas que mais me prejudicaram psicologicamente, culminando em uma depressão grave e no transtorno de ansiedade generalizado, doenças que afetaram a minha continuação no mercado de trabalho, do qual eu tive que me afastar por mais de um ano; afetaram a minha condição financeira; o meu emocional; o meu corpo; a minha capacidade cognitiva; meus relacionamentos sociais e que quase custou a minha vida.


Comecei a trabalhar muito jovem, ainda quando estava no ensino médio, mas foi a melhor coisa que eu fiz, amadureci muito como pessoa e profissional, esse foi um dos elogios que eu recebi de uma baita gestora de recursos humanos e que eu nunca esqueço. Trabalhei em muitos lugares e aprendi muito em todos eles, sempre recebi diversos elogios pela profissional que eu sou. Mas nem só de elogios vive um funcionário, não é mesmo?


Críticas, quem gosta delas? Mas são necessárias para o nosso crescimento, isso quando são construtivas. Quando não são, servem apenas para mostrar quem tem o poder, para rebaixar o outro, ferir, humilhar e isso se torna um assédio, que pode ser moral, psicológico, às vezes, até sexual. Você empregador (a), já parou para pensar se causou o sofrimento de alguém? Pois é, muitos empresários (as) acreditam não existir isso de assédio moral, que é apenas um artifício de ex-funcionários que querem prejudicar suas empresas.


PRIMEIRO CONTATO COM ASSÉDIO MORAL


Meu contato com o assédio moral veio logo após a minha formação na faculdade, precisava de experiência na minha área, jornalismo, e entrei na sua agência de comunicação que só tinha eu como funcionária, era sua assistente na assessoria de imprensa. Assim quando entrei, as pessoas da outra empresa, que dividiam a mesma sala comercial com a sua empresa, falaram que ninguém parava muito tempo ali.

Já comecei bem...rs. Você sempre me culpava por algum problema que acontecia na agência, todo erro era meu, nunca seu. Quando eu fazia alguma coisa no texto que estava errado você falava: “você não é jornalista?!” (em tom sarcástico). Mas, espera aí, eu não tinha acabado de me formar? Você não me contratou sabendo que eu tinha muito a aprender?


Fiz coisas no escritório que não eram a minha função: eu tinha que limpar a sala de reunião, servir café, entre outras coisas que não eram trabalho de jornalista. Tinha medo de você, toda vez que você abria a porta me dava pavor. Depois de um tempo, todos os dias que eu chegava na empresa eu sentia dores abdominais e ia correndo para o banheiro, tinha diarreia.


Quando eu decidi sair da sua empresa você me fez encontrar outra pessoa para o meu lugar e ensinar a minha rotina. Eu gostei da menina e tive dó, mas eu queria sair dali. Quando eu finalmente estava saindo, você resolveu conceder a mim o primeiro elogio por uma matéria que eu tinha feito. Por que só agora?


SEGUNDO E MAIS TRAUMÁTICO CONTATO COM O ASSÉDIO


Na entrevista para entrar na empresa já foi estranho. Você falou mal das outras candidatas para mim e já me subestimou no primeiro contato, achando que eu não estava prestando atenção no que estava falando e parecia que aquela situação dava prazer a você, como se estivesse torcendo para que eu tropeçasse para tirar sarro da minha cara. Outra coisa que você falou para mim na entrevista: “Eu tenho um amigo jornalista e ele é muito inteligente, você deve ser também né”. Tipo, vou contratar você mesmo, deve ser melhor do que as outras que passaram aqui.


Impacto dos primeiros dias


Nos primeiros dias fiquei sabendo que as pessoas que trabalharam com você anteriormente não ficavam por muito tempo – alguma semelhança? – e que a anterior queria entrar com um processo contra você por assédio moral e meio que todo mundo tirava sarro disso, como se a menina estivesse exagerando. Tentei não me contaminar por isso, mas já fiquei preocupada.


Depois disso soube que uma das meninas apagou dados importantes de algumas planilhas para se “vingar”, mas quem pagou o pato fui eu, que tive que organizar tudo do zero, sem ter histórico. Mas isso já demonstra o quanto as funcionárias anteriores tinham problemas com você.


Aos poucos fui percebendo algumas características suas: autoritário (a), machista, acusador (a), julgador (a), arcaico (a), preconceituoso (a), mesquinho (a), entre outras coisas. Logo no começo você disse para mim que não existe esse negócio de chefe ou líder, chefe é chefe e pronto.


No começo fui chamada para participar de reuniões importantes de decisão estratégica da empresa, mas depois de eu me posicionar contrária a algumas coisas, a sua relação comigo mudou. Um dos meus posicionamentos foi com relação à eu ficar responsável pela entrega de todos dentro do escritório, mas eu não tinha nem o cargo e nem o salário compatível com a posição que você queria que eu tivesse, ou seja, queria que eu fosse a “chefe” ou “gestora” responsável por cobrar a todos dos seus deveres e caso não entregassem eu seria responsabilizada, sendo que eu era apenas uma assistente.

Fico feliz por você enxergar o quanto eu era responsável e organizada, mas não achei correto, primeiro que já tinha um gestor ganhando para isso, por que ele não tinha essa função? Outra que eu não sou babá de ninguém e para ter um cargo de responsabilidade desse eu teria que receber para tal. Essa não foi a única vez que você subestimou a minha inteligência, uma vez propôs que eu fizesse uma tradução do inglês para o português de um documento pessoal, insinuando que seria bom para mim, para eu ver como estava meu nível de inglês, ou seja, não queria pagar pelo serviço extra, mas eu recusei a oferta dizendo que estava ocupada. Não precisava provar para você o meu nível de inglês, eu já trabalhei em uma multinacional e escrevia e-mails em inglês todos os dias.


Perseguição política


Você odiava a esquerda e por eu ser jornalista já colocou em sua cabeça que eu era “esquerdista” e “petista” também. Em época de eleição ou de alguma outra votação política, você ficava me mandando mensagens no WhatsApp particular ridicularizando o PT, Lula, Dilma, os Sindicatos, sem nunca perguntar se eu estava interessada em receber tais mensagens.


Toda vez que tinha alguma greve organizada pelo sindicato dos trabalhadores você insinuava que eu era a favor, sem eu nunca ter me manifestado sobre isso. Quando os sindicatos foram derrubados você me perguntou a minha opinião, quase querendo que eu concordasse com você.


Em um determinado momento político do país foi anunciado que haveria um protesto na Paulista e você perguntou quem iria, dizendo que todo mundo tinha que ir porque estávamos lutando pelo futuro do país.


Está aí demonstrado o seu autoritarismo, em que somente a sua opinião importa e está correta, precisando também que todos ao seu redor concordem com você. Isso lembra algo da política atual? Não me surpreende que você tenha votado nele.


Diferença de tratamento entre funcionários


Certa vez teve uma greve de ônibus e eu fiz de tudo para chegar na empresa, sai de casa no horário de sempre (7 h) e cheguei quase na hora do almoço devido ao trânsito. Todo mundo tinha chegado já e ainda tive que aturar olhares acusadores em cima de mim.


A próxima greve foi comunicada com antecedência e eu questionei se a empresa providenciaria um Uber para que todos pudessem ir trabalhar ou se a gente faria o trabalho de casa e ninguém me respondeu. Antes do dia da greve fiquei sabendo que todos os funcionários já tinham uma alternativa para chegar ao trabalho: para um foi permitido que ficasse de casa, para outro seria pago o Uber, para outro iam deixar que a pessoa fosse de moto – detalhe, a empresa não permitia que o funcionário usasse a moto por medo de acidente durante o período de trabalho, pois não pagavam seguro de vida para ninguém da empresa –, outro já ia de carro mesmo e eu, bom, se eu não fosse, segundo as suas palavras, o dia seria descontado da minha folha.


Fiquei revoltada nesse dia e falei que ia tentar chegar ao trabalho, mas se não tivesse nenhum meio de locomoção, não tinha como ir para a empresa, mas você se manteve na posição, dizendo que iria descontar de mim.


No dia seguinte acordei no mesmo horário e liguei a TV, tudo realmente estava parado, nada funcionava e eu mandei uma mensagem e ninguém me respondeu. Procurei os meus direitos e vi que nesses casos a empresa não pode descontar o seu dia, já que se tratava de uma greve que impossibilitava do funcionário chegar na empresa. Mas eu não facilitei, mandei um e-mail bem formal me precavendo de qualquer represaria, informando que estava online e no WhatsApp caso fosse preciso entrar em contato comigo e fiz o que deu remotamente.


No próximo dia útil fui chamada para conversar. Você me criticou por eu ter mandado aquele e-mail e disse que parecia que eu estava fazendo aquilo para usar contra a empresa depois, ou seja, em algum tipo de acusamento judicial. E eu falei que eu só estava formalizando que eu estava disponível em casa, ou seja, que eu trabalhei e, portanto, não teria como o dia ser descontado de mim.


Você comentou que nunca seria antiprofissional comigo e eu falei: “Já que você é tão profissional, você pode parar de mandar mensagens que não tem relação com o trabalho para o meu WhatsApp pessoal?”. O certo seria eu ter um número da empresa para utilizar, mas eu utilizava o meu pessoal sem problemas, até que isso começou a me irritar.


Bom, você ficou nervoso e então disse que ia parar de pagar parte da minha pós-gradução, que você mesmo se ofereceu para pagar (eram apenas R$ 200 por mês) como um benefício. Eu falei para você ficar à vontade, que esse valor não ia me fazer falta e realmente não fez.


A necessidade de ter controle total sob o funcionário


Nenhum funcionário da empresa tinha convênio médico, ou seja, dependíamos do SUS. E, como todos sabem, quando você tenta marcar uma consulta você espera muito tempo e quando consegue geralmente são em horários complicados: no meio da manhã ou da tarde, ou seja, você não escolhe os horários.


Certa vez eu já fui chamada atenção por ir demais ao médico e quando eu ia você ficava me perguntando por que eu fui no médico x e y, o que ele falou e etc. Você era meu empregador ou meu pai? Uma vez falei que fui no ortopedista e você insinuou que eu era muito nova para ter problemas ortopédicos, aí eu tive que falar: “acho que essas coisas não têm idade, eu tenho problema nos dois joelhos e na coluna”. Inclusive, eu descobri que tenho que fazer uma cirurgia em ambos os joelhos. Quem era você para dizer alguma coisa, nem formado (a) em medicina era.


Outra vez um dos funcionários sofreu um acidente e os médicos deram alguns dias de licença, mas no escritório, enquanto ele estava em casa, ouvia muitos comentários dizendo que o que ele teve foi leve e que dava para ele voltar a trabalhar normalmente, que tem alguns médicos que exageram mesmo. Resumo: o funcionário voltou antes de terminar a licença e quando ele voltou ao médico ainda levou bronca do médico que o atendeu.


“Brincadeiras” de mau gosto

Em suas tentativas de “brincar” comigo você acabou fazendo comentários machistas que eu não gostei. Certa vez falou: “Você não compra perfex (um tipo de pano utilizado na limpeza que é descartável)?” e eu falei: “Não faço ideia do que seja isso”. E então você: “Nossa, você não faz limpeza na sua casa não? Como quer casar desse jeito?”. E eu falei: “bom, eu limpo a casa e utilizo flanela. Eu não tenho obrigação de saber tudo de limpeza e meu namorado com certeza vai me ajudar também, a casa vai ser dos dois.”


Outro comentário pior ainda ocorreu depois de uma festa de final de ano em que a empresa tinha contratado um garçom que era amigo de um dos funcionários. Você: “O que você achou do ‘fulano de tal’?”. Não entendi a pergunta, mas respondi: “Ele serviu bem o pessoal e era bem solícito”. Aí comentou algo como se ele fosse prendado, porque sabe cozinhar e etc. e que seria um bom partido, “você não precisaria cozinhar se largasse do seu namorado e ficasse com ele”. Bom, depois disso, nem lembro o que eu respondi, mas devo ter dito algo como: “eu sei cozinhar, não preciso que cozinhem para mim”.


Outra situação constrangedora para uma mulher. Em uma reunião que a gente teve, um dos funcionários estava em home office porque estava de licença pelo nascimento da filha dele. Antes de começar os assuntos relevantes, o funcionário falou que já não aguentava mais a gravidez, porque a mulher dele estava com muito “fogo”, segundo ele, e não estava deixando ele em paz. Algumas das pessoas na sala riram e surgiu algum comentário/pergunta que você fez direcionada para mim, como se eu tivesse que “dar no couro” sempre com o meu namorado, porque depois de ganhar bebê, ele ia ficar sem sexo. Não falei nada e me chamaram atenção, como se eu não estivesse prestando atenção na reunião, aí eu comentei: “desculpa, não ouvi, estava prestando atenção em outra coisa”.


Do profissional para o pessoal


No tempo em que fiquei na sua empresa eu vi pessoas serem julgadas a todo momento, vi preconceito com relação a orientação sexual, quanto a competência das pessoas que eram contratadas, piadas de mau gosto, exploração trabalhista, todas essas coisas foram juntando dentro de mim e passei a ter nojo de você como pessoa.


Muitas vezes você queria me forçar a ser uma pessoa que eu não era, isso ao falar com clientes, fornecedores, entre outras pessoas. Sempre acho que tudo se resolve com educação, empatia e simpatia, então sempre procurei criar um relacionamento baseado na conversa, em saber como a pessoa estava se sentindo, fazendo uma brincadeira ou outra, mas você achava que eu tinha que ser mais dura, as vezes até grossa, segundo você eu tinha que ser a “parte má” da história, para depois irem te procurar para resolver com a “parte boa e legal”, que seria você. Qual a lógica? Não ia deixar de ser quem eu sou.


Mas a gota d’água para mim, da falta de caráter e decência, foi você não pagar o 1/3 de férias para uma das babás de suas filhas, que você registrou como funcionária da empresa. Ao me explicar, você falou que não ia pagar pois: “Você sabe né, esse pessoal mais simples, não sabe lidar com dinheiro, gastam tudo e depois vem pedir para eu ajudar nas despesas”. Imagina como eu fiquei depois de ouvir uma atrocidade dessa? Sem comentários.


O fim de tudo...

Sempre fui muito reconhecida nas empresas em que eu trabalhei. Nessa foi a segunda em que eu fui rebaixada ao status de funcionária incompetente, mas a primeira em que o empregador (a) a todo momento ficava me forçando a pedir demissão: falando que eu só servia para fazer o que você mandava, porque eu não pensava; falando que eu tinha a memória fraca e que precisava tomar fosfozol (remédio para memória). Essa acusação veio porque você mesmo não se lembrava onde tinha colocado um documento que eu deixei na sua mesa e me acusou de ter perdido. Fora outras coisas...


Bom... ao ler tudo isso que eu escrevi, você percebeu o mal que fez para mim? Eu me fiz de forte muitas vezes e fui aguentando enquanto eu pude, pois tinha que pagar as minhas contas. Eu não percebi, mas nos últimos meses que estava na sua empresa eu já estava sentindo os efeitos da depressão: comecei a ter insônia, dor muscular quase que diária na região dos ombros e pescoço, falta de vontade de levantar da cama, infelicidade, dificuldade cognitiva e perda de memória.


Para finalizar, comecei a fazer algumas entrevistas e você se ligou e me perguntou se eu tinha chances de passar e eu falei: “espero que sim, por isso estou fazendo entrevistas, mas tudo depende do recrutador”.


O processo até eu ser chamada para o outro emprego demorou e, além de estar ansiosa por uma resposta, ainda sofria uma pressão sua para saber quando possivelmente eu ia deixar a empresa, porque você precisava se precaver, se organizar, já que eu era responsável por todo administrativo e financeiro da empresa. Antes mesmo de saber se eu ia conseguir o emprego ou não, você me fez listar tudo que eu fazia, montar um manual de como fazer tudo para que outra pessoa assumisse.


Eu fiz tudo o que você pediu, detalhei tudo, poderia não ter feito de pirraça por tudo o que eu passei, mas eu sou profissional. Até que finalmente saiu a resposta do processo e eu passei!! Foi o dia mais feliz da minha vida naquela época.


E não o bastante, você queria saber para qual empresa eu ia, qual cargo ia ter e etc., para quê? Me deixa em paz, me deixa ir emboraaaaa... Disse que preferia não falar e você me falou que não ia me prejudicar. Quem vai saber?! Me desejou boa sorte e foi isso.


Mas o trauma que eu vivi trabalhando na sua empresa me fez me cobrar demais no trabalho novo, o que gerou um transtorno de ansiedade, as minhas insônias passaram a ser todos os dias, as minhas dores também e comecei a ter pânicos sem motivo. Pedi para sair da empresa e fiquei me cuidando durante um ano e meio. O resto você pode entender melhor no depoimento que gravei.


Por fim, resolvi não entrar com um processo por assédio moral contra você e sua empresa porque eu estava debilitada demais e não queria encontrar você nunca mais na minha vida, não queria reviver tudo e ter que provar o que eu sofri. A lei trabalhista mudou também e o que antes era certo de eu ganhar, porque os advogados viam como causa ganha, agora poderia ser que eu ainda perdesse e tivesse que pagar um dinheiro que eu não tinha para a sua empresa.


Agora estou curada da depressão e do transtorno de ansiedade, estou aprendendo com o passado, perdoando a todos os envolvidos e ajudando outras pessoas. Esse foi o meu maior ganho!

Namastê, boas vibrações para você!

FLUIRDAMENTE

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